SAÚDE

Saiba como reconhecer e validar suas vontades mais profundas

Todos nós temos o recta de saber nossas realizações e cintilar (Imagem: eamesBot | Shutterstock)

Saiba porquê reconhecer e validar suas vontades mais profundas

Pode parecer um contrassenso difícil de assimilar. Mas acontece o tempo todo. Mais do que a gente gostaria. Com tantas possibilidades de encontros, aprendizados e realizações pelos caminhos que trilhamos ao longo da vida, quantos de nós não acabam se apequenando perante tal imensidão? Isso não é para mim, está bom assim, não preciso de muito, a gente aperta e dá um jeito, vai levando.

Embora o incômodo exista, podemos permanecer um tempão nesse lugar estreito e escasso de descobertas gratificantes. Sem assumir para nós mesmos que, sim, temos ambições e desejos. Queremos gozar de mais afeto, conforto, sucesso, felicidade, saúde, vitalidade.

Mas parece que a culpa e o constrangimento fazem desse impulso um pouco inapropriado. Interesseiro até. Quando, na verdade, nos permitirmos sonhar e gerar uma colheita farta nas mais
diversas áreas do viver

é sinal benigno. Significa que, em nosso íntimo, nos sentimos dignos e merecedores do que a vida tem de bom a nos ofertar.

“As pessoas precisam ter um mínimo de sofreguidão para que seu desenvolvimento seja progressivo. Quem se acomoda com o mínimo fica estagnado. Isso porque, ao rejeitar novas possibilidades e oportunidades, o tipo vai se tornando cada vez mais restringido, restrito ao que já tem e conhece”, observa Monica Machado, psicóloga e fundadora da Clínica Ame.C, pós-graduada em Psicanálise e Saúde Mental pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Albert Einstein.

“Nenhum ser vivo consegue viver tempos prolongados de privação das necessidades, e viver uma vida com sentido é uma premência humana. Quando isso não acontece, o adoecimento pode surgir porquê uma resposta de que um pouco vital não foi atendido, alguma segmento de nós ficou perdida e precisa ser resgatada de nossa história”, corrobora o psicólogo Thiago Domingues, que também é poeta e viajante.

O mais de cada um

Evidente que a largura do libido varia de pessoa para pessoa. Para um, permitir-se “mais” pode valer reduzir a trouxa horária de trabalho e gozar de tempo livre para fantasiar ou escoltar de perto o incremento dos filhos; para outro, pode simbolizar solidez financeira para dormir em silêncio, sem ser assombrado pelo fantasma da escassez que mutilou a pureza da puerícia.

Também pode proferir saudação a uma rotina em que a saúde física, mental e emocional determina o compasso da agenda; ser capaz de bancar um ofício “recíproco”, pouco valorizado socialmente, mas que honra a vocação da espírito, ou, logo, encontrar dentro de si motivação e ânimo para voltar a estudar. Conforto por estar onde se está, sendo quem se é,
cultivando relações

e fazeres enriquecedores. Tudo isso pode ser chamado, cá, de “mais”.

O filósofo germânico Friedrich Nietzsche diria que estamos nos referindo à “vontade de potência”, aquela ebulição interna gerada por experiências que enchem nossos dias de sentido e alegria. “Onde encontrei vida, encontrei vontade de potência”, ele escreveu. Na visão da filósofa Viviane Mosé, autora de Nietzsche Hoje
(Vozes Nobilis), “tudo o que vive quer mais; o querer da própria vida é expandir, ir além, seguir sempre adiante”. Que a gente não se esqueça mais disso.

Amarras ancestrais

Entretanto, muitos podem ser os freios que nos fazem morrer de sede em frente ao mar, parafraseando o compositor Djavan. Vamos chegar mais perto de dois deles: pânico e culpa. Terror, por exemplo, de seguir novos rumos e, com isso, ter de recusar do divulgado ou da segurança prévia, pânico de fazer uma aposta significativa e se decepcionar, pânico de assumir grandes responsabilidades e não dar conta delas, em suma, pânico de atender ao libido por amplitude e se machucar.

Culpa por desejar fazer dissemelhante do que foi
aprendido dentro da família

, culpa por ocupar uma posição confortável enquanto tanta gente padece num mundo desigual e injusto, culpa por se sentir feliz e realizado quando pessoas queridas estão atoladas em queixas e dificuldades.

Acontece que não basta desejar e pronto. Uma hora teremos de fazer escolhas em função do que se deseja. E bancá-las implica se responsabilizar pelas consequências desse ato. Ju De Mari, terapeuta, mentora de curso para mulheres e colunista do portal Vida Simples, lembra quão conflituoso e angustiante isso pode se tornar para algumas pessoas.

“Para assumir ambições, será preciso romper com algumas (ou muitas) expectativas coletivas, sociais e relacionais sobre o que deveríamos querer e ser. Isso inclui também a própria expectativa em relação a quem a pessoa acha que deveria ser, fazer, comportar-se etc.”, pondera a perito.

A dupla “pânico e culpa”, também é bom lembrar, reflete os valores herdados da tradição cultural católica, preponderante em terras brasileiras desde a colonização portuguesa. Terror de sermos punidos por nossos “erros” por um Deus onipresente; culpa por não sermos bons e puros o suficiente. Portanto, em primeiro lugar, precisamos reconhecer quão entranhado em nós está esse modo de olhar o mundo e atribuir valor às nossas condutas e escolhas.

É preciso se concordar

Para fazer frente às forças – internas e externas – contrárias ao nosso desabrochar, precisamos estar fincados num “inabalável siso de merecimento”, nas palavras de Thiago Domingues. A firmeza interno virá da capacidade de nos aceitarmos do jeito que somos: imperfeitos, frágeis, em muitos momentos, atrapalhados para tantas coisas, além de atravessados por faltas e lacunas diversas.

Somente desse lugar despido de vaidades poderemos calcular nossas necessidades e sustentar o expansão do nosso libido. Mas, para nos assentarmos nessa compreensão, precisamos sentir
pesar por nós mesmos

, segundo Ana Raia, perito em desenvolvimento humano.

“Enquanto nós, principalmente as mulheres, enfatizarmos nossos buracos, partes nossas que não atendem ao padrão ideal imposto pela sociedade patriarcal, aquilo que não alcançamos ainda, não nos veremos porquê pessoas inteiras e, consequentemente, merecedoras de viver uma vida abundoso em todas as áreas”, frisa.

Segundo ela, precisamos olhar para nós mesmos com gentileza e pesar a término de nos acolhermos porquê seres humanos em procura de aprimoramento. “Não
existe esse lugar de você

preencher e ser tudo ao mesmo tempo, mas, sim, o sentimento de se encontrar suficiente, embora ainda esteja no caminho da própria evolução.”

Quantas de nós sentem que não têm “recta” a uma vida mais ligeiro, satisfatória e autêntica porque absorveram a lógica de que a estrada é árdua, repleta de renúncias, sem brechas para o prazer? E assim nos encolhemos e sequer cogitamos uma narrativa dissemelhante, mais generosa e interessante. “Nossos sonhos refletem a profundeza do nosso ser, nossos desejos espelham a forma porquê nos enxergamos. Se eu me vejo pequena, não vou me permitir sonhar grande”, avalia Ana.

A essa fundura da sua jornada, ela não consegue descolar a permissão para se expandir da espiritualidade. Ana prefere crer e honrar uma força maior que é bondosa, tenha ela o nome que tiver, que deseja que a gente viva da melhor forma provável, com opulência, uma vez que somos um pedacinho desse grande quebra-cabeça divino. E, portanto, centelhas da força criativa geradora de tudo o que existe.

Recado da nossa verdade

Aliás, um ponto inescapável nessa procura por mais espaço para o desejar consiste em honrar a sofreguidão saudável daquela que desconhece limites e, por isso, pode se desgovernar em suas excessivas demandas. “É importante reconhecer nossas necessidades reais, não as que são estimuladas pelas mídias, para buscarmos o suficiente, a justa medida das coisas. O conhecimento de si ajuda a trespassar das armadilhas das necessidades inventadas para perseguir o que realmente precisamos”, pontua Domingues. “Primeiro é preciso se apropriar da sua origem para que não se perda no mundo da sofreguidão, em que o tipo é um padrão na sociedade numulário, ou seja, alguém que
não valoriza o ‘ser’

, mas o ‘ter’”, reforça Monica.

Quando afirmamos nossos valores pessoais e escolhemos o que faz sentido para nós a cada situação e contexto, “é porquê dar crédito à nossa figura de poder interna e ao recta à sentença da nossa autenticidade”, diz Ju De Mari.

A partir daí, será mais fácil exercitar a curiosidade e a originalidade, para que a gente recupere o prazer de sonhar e realizar. Inclusive ele, o numerário, manadeira de culpa, desconforto e distorções, precisa fazer segmento da vida neste projecto sem ser limado pela excessiva humildade, pois as finanças são, antes de tudo, uma robustez de fertilização dos caminhos eleitos pela nossa origem. “O numerário pode nos colocar em relação com o mundo de uma forma justa e não predatória. Isso vale também para o afeto, saúde e vitalidade”, compara Domingues.

Conforto material

Daniela Roble, criadora da Moeda é Meio, plataforma de instrução, gestão e transformação financeira para mulheres, não tem dúvidas disso. Aliás, sua missão é justamente “limpar” o numerário das más impressões que recaíram sobre ele ao longo da história, nos fazendo enxergá-lo porquê estrume para nossos propósitos de vida.

Uma vez que ela muito contextualiza, vivemos num país marcado por desigualdades, crises políticas e econômicas, logo é originário que muitos de nós carreguem na memória experiências materiais ligadas à escassez e ao pânico da falta. E que esse registro se perpetue no cotidiano não é de se espantar. A questão, segundo ela, não é encarar nossas crenças limitantes porquê um mal a ser exterminado, mas sermos capazes de reconhecê-las e transformá-las.

“Elas são segmento de quem a gente é e nos trouxeram até cá. Por isso, eu trabalho para incluí-las, pois o simples roupa de saber que elas existem, o simples roupa de
reconhecer que o que a gente pensa

sobre numerário é fruto da família onde a gente nasceu, do país onde a gente cresceu, da escola que a gente cursou, da igreja que a gente frequentou, já produz ganhos na nossa relação com a material”, justifica.

Se a gente conversar francamente sobre essas “travas”, ela defende, o numerário deixará de ser tabu. Daniela acredita que, mesmo antes de a nossa situação financeira se desapertar, a gente já pode encontrar mais conforto, perspicuidade e tranquilidade pelo simples roupa de darmos nomes às nossas aflições e receios ligados aos cifrões. “O que produz bem-estar é a gente se aproximar do ponto numerário, permanecer íntima dele, pedir ajuda para deixar de ter pânico dos números, deixar de ter pânico do que os números da nossa vida financeira contam a nosso saudação”, enfatiza.

Uma culpa individual

Mas onde alocar a culpa por nos guarnecer materialmente pertencendo a um país onde faltam políticas públicas para promover a isenção, sequer para prometer que todas as pessoas tenham o mínimo necessário? “A gente se impõe uma culpa individual, quase uma vergonha sobre esse problema. Uma vez que se, ao desejar o bom para mim, eu estivesse contribuindo e alargando as desigualdades sociais”, ela admite.

Veja só porquê há uma perspectiva muito mais alentadora a esse saudação. No entender da perito, quando a gente deixa de se apropriar de 100% do potencial das
nossas possibilidades

de curso, de numerário, não está contribuindo com a vida de ninguém. Só está deixando de assumir o quilate de transformação que vem junto com o numerário, com o conforto, com o bem-estar.

O que, senão essa estrutura, nos permite fazer mais do que a gente veio realizar neste mundo? Também já parou para pensar o que aconteceria se as pessoas tocadas por preocupações sociais deixassem de se responsabilizar pelos próprios ganhos financeiros e de fazerem-nos fluir para os lugares certos? Pois logo, o numerário que a gente deixa de ter não some do mundo. Muito pelo contrário. “Ele só segue concentrado nas mãos daqueles que não têm as mesmas preocupações que a gente”, argumenta a perito.

Espero que as visões e os argumentos desta reportagem o ajudem a se sentir merecedor do que anseia quando, em silêncio, conversa com as estrelas. Finalmente, se a gente se permite “mais”, todo o resto também tem a chance de se dilatar, porquê quer a vida, em sua sábia vontade de potência.

Por Raphaela de Campos Mello – revista Vida Simples

É jornalista. “Mais”, para ela, significa cercar-se de pessoas que enriquecem seu olhar para a vida.

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